Pesquisar este blog

Carregando...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Minha paisagem ao telefone

Anabe Lopes

De repente uma canção...
e a noite se faz dia e o que era
triste se fez leve e dança
nos salões iluminados da poesia!

De repente a vida é mais viva
e parece caminhar ao reinício
e a alma salta morros, várzeas
precipícios e passeia alegremente
sobre campos elísios

De repente sou de novo adolescente
quando me roça suave a voz o ouvido
fazendo levitar meu corpo e mente
remexendo e comovendo os meus sentidos

De repente posso ver a paisagem:
terra quente, mata verde, sol nascente,
no céu um arco iris colorido
e a espera faz-se leve e reluzente
uma viagem excitante ao seu umbigo.

Diáfana

Anabe Lopes


Chegam dias de absoluta desersão,
dias de estar no mundo sem no mundo estar.
Tudo é estranhesa
e nada, ou quase nada, parece ter sido feito para nós.
Pesa o portão da antiga residência
E a vida se torna um chegar desejando partir.
Partir para onde?
As paredes da alma impregnadas de vazio...
as tardes se arrastam e nos afundam no chão
as noites são só silencio e saudade,
saudade não se sabe exatamente do quê,
embora se tenha vivido muito e intensamente...
...até o direito à saudade nos é negado
Há uma delicadeza frágil que nos compõe
e o corpo torna-se menor
e contornado de uma dormência
que é quase carne quase espírito...
E somos só crianças deitadas no escuro
em posição fetal
vendo nossos monstrinhos desfilarem e rirem de nós...
Desejamos ser tocados, abraçados, acariciados...
noite afora, noite adentro... no soprar das horas,
no frigir dos ventos...
eternidade afora, eternidade adentro...
E sabemos que não somos eternos
e que tudo  - e principalmente os sonhos bons - é muito breve!
E só por serem sonhos os sonhos são bons...
E um sonho é só um sonho
como a flor é só uma flor,
leve suave e breve...
E por si passam moscas e  borboletas...
e houve um dia e outro dia... e outro...
um beija-flor...
... e tantas noites escuras e frias...
e todo movimento é burburinho e silêncio...
Não fosse o brilho das manhãs,
a beleza das trilhas e caminhos
 e a magia do voo das borboletas,
a vida seria insuportável!!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Sou mulher, com licença!!

Anabe Lopes



Eu  mordi o fruto proibido
E voltei à árvore varias vezes
Senti seu doce
Seus prazeres



Sou mulher e a mim
Negam-me o direito
De amar e ser um ser perfeito
Eu corro, ando, falo
Quase ninguém me escuta...

Eu passo horas ao espelho
E saio correndo,
Que o tempo é breve
E a vida é curta

 Eu mordi o fruto proibido
E voltei à árvore várias vezes
Senti a dor e o frenesi
De ser de mundos
Longe daqui

Estudo ciência e religião
Faço a história desta nação
E se lhe faço uma conferência
Não há espaço na sua agenda
Me dás no máximo, tua ciência...
Poucas palavras de complacência

Dirijo carro e caminhão
Olho o meu filho te dou a mão
E sempre me negas tua atenção
Queres de mim
Um corpo ardente
Mente vazia
Pele descrente...

Mordi o fruto proibido
E tu mordeste de enxerido
Tolo e covarde, não o fez primeiro,
E me apontas as minhas culpas
Nada tu fazes
Ficas na escuta
E fala grosso
E pisa fundo
Pensa que tem
A chave do mundo

Eu tenho asas
E tu a prendes
Durmo cansada
Te surpreendes
Quando desperto toda animada
Destroço amarras
Quebro correntes...

 Eu sou mulher
Sou diferente,
Mas sou igual
A toda gente
Não sou nem crente
Nem descrente
Eu aconteço!
Não planto o bem
Nem colho o mal
Apenas vivo, cresço e apareço!!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Motivos

o que me faz chorar?
um medo
uma extensão reprimida
de mim mesma
por mim mesma
pela vida?


o que me faz tremer?
o medo
o desejo de ser
de ter
de expressar
a palavra presa
na garganta

o carinho contido
nas minhas frãgeis mãos
a visão guardada no olhar
que ainda não encontrou
a paisagem
a passagem
do ser que sou
ao ser que fui
ao ser deveria ter sido
e quiça
nunca serei?

o que me faz calar?
o medo da incompreensão
de florestas de palavras
que me habitam
da confusão de folhas secas
do meu chão
da profusão de sentimentos
do meu coração
da própria impotência
dos meus gestos
e das minhas palavras -
as que meu intelcto e minhas emoções
me permitem colher-
para expressar
o que apenas sinto
e, para que compreendas,
é preciso que estejas
atento para margeá-las
sem nunca entendê-las
mas, quem sabe, senti-las
com um pouco do meu
paladar pela vida
que me afunda em mim
e me leva a ti
e te traz a mim
e te pode levar...
pelos seus próprios caminhos
pelas suas próprias florestas...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vida

...pensei em voar
até sonhava
que nos meus passos
havia asas...

quis repousar
sonhos e planos
e o meu pesar....
faltou-me casa

não magoar
não causar danos
pensei mudar
de opinião
matar desejos
do coração...

seguir calada
a minha sina
e cabisbaixa
negar a rima
e tudo aquilo
que o dia ensina...

deixar que os anos
e os meus enganos
fossem levando
o que eu nao fui...

veja que  a alma
é soberana
mesmo calada
nunca se engana
e a mina d'água
um dia flui...

pensei em voar
e até sonhava...
e nos meus pés
havia asas!!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012


Este é um dos poemas mais lindos que eu já li em toda a minha vida. Ele simboliza a ligação espontânea e feliz entre duas pessoas que se encontram e decidem, explicita ou tacitamente, compartilhar suas vidas, seus corpos e sua alma. Um lindo poema-mito-pacto de amor!!! Um poema universal e atemporal, assim como o amor, que não pode ser classificado de antigo, moderno ou atual.

Conta Lin Yutang que este símbolo foi expresso por uma senhora chinesa de nome Kuan, esposa do grande pintorYüan Chao Mengfu, e também pintora e mestra na Corte Imperial. Quando maduro ambos e já ia arrefecendo o ardor de Chao, ou pelo menos já pensava em toma u’a amante, escreveu ela este poema, que penetrou o coração do marido e mudou-lhe as intenções:


“Há entre nós ambos
demasiada emoção.
tal é o motivo
Do que tem havido!
Toma um bocado de argila,
molha-a, amolga-a,
e faze uma imagem minha
e uma imagem tua.
Toma-as então, rempe-as
e adiciona-lhes um pouco de água.
Transforma-as de novo
em uma imagem tua
e uma imagem minha.
E então haverá na minha argila alguma coisa tua
e na tua argila alguma coisa minha.
E jamais coisa nenhuma nos há de separar
vivos, dormiremos na mesma cama
e, mortos, na mesma sepultura,”



...e não me acuse se ser romântica, eu não terei como nem porque me defender!!

 
Fonte: YTANG, Lin. A importância de viver. 2. ed. Globo, Porto Alegre, 1941 [tradução: Mário Quintana]